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A origem do aumento persistente e generalizado de preços dos alimentos no Brasil


Afinal, como o país que tanto se orgulha em ser o “celeiro do mundo” pode ter tanta dificuldade em alimentar sua população

Publicado: 03/04/2025
Escrito por: Le Monde Diplomatique

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL

Um dos assuntos mais tratados atualmente dói no bolso, mas também na barriga. A alta dos preços dos alimentos no Brasil tem deixado muitas famílias preocupadas, já em situação de vulnerabilidade social, em como vão alimentar seus filhos. Ao mesmo tempo, estudiosos tentam formular diagnósticos e (alguns) políticos pensam em soluções.

Afinal, como o país que tanto se orgulha em ser o “celeiro do mundo” pode ter tanta dificuldade em alimentar sua população? Dentre os fatores que influenciam esta alta de preços vivenciada atualmente, podemos citar a prioridade de exportação, não somente de commodities como de costume, mas também do alargamento do mercado de exportação de frutas, dentre outros fatores de mercados internacionais conturbados. Também não podemos deixar de lembrar que vivemos em situações de mudanças climáticas. Secas mais prolongadas, recordes de temperaturas altas e enchentes ou volumes históricos de chuva fazem com que sejam perdidos diversos quilos de alimentos, na lavoura ou que não conseguem ser armazenados ou transportados.

Alguns alimentos estão mais propensos às consequências das mudanças climáticas, demorando, muitas vezes, mais tempo para se recuperar delas no sistema produtivo. Esses alimentos são chamados aqui de in natura ou minimamente processados, segundo a classificação NOVA (Monteiro et al., 2018). Também, como se verá, os que mais encareceram. Já àqueles que tem diferentes níveis de processamento tem menor dependência dos fatores climáticos, sofrendo menos variações de preços.

Crédito: Flickr/Creative Commons

Variação de preços

Explorar as variações de preços pelos grupos de nível de processamento e cadeias produtivas ajuda a compreender o contexto vivido no país. Durante o período de 2007 a 2024, analisou-se a variação de preços dos alimentos ao consumidor no Brasil, por nível de processamento e cadeia agroalimentar. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) é dividido em nove grupos, sendo um deles o de Alimentação e Bebidas (IBGE, 2025). Esse grupo contém dois subgrupos: Alimentação no Domicílio e Alimentação Fora do Domicílio. A Alimentação no Domicílio é subdividida em 16 itens, que incluem 159 subitens. No presente texto, esses subitens foram reclassificados de duas formas. A primeira adapta a proposta de Monteiro et al. (2018), que classifica os alimentos pela extensão e propósito do processamento. A segunda, é acordo com a origem agrícola dos subitens, agrupando-os por cadeias agroalimentares.

Os dados da FAO sobre preços internacionais de alimentos indicam seu encarecimento relativo, desde o início do século XXI (FAO, 2025). No Brasil, isto demorou alguns anos para se manifestar. Entre 2001 e 2006, o IPAB (Índice de Preços de Alimentação e Bebidas) cresceu 50,9%, pouco menos que o IPCA, 55,3%. Contudo, de 2007 em diante, em apenas quatro dos 18 anos, 2009, 2017, 2021 e 2023 o IPCA superou o IPAB. No período 2007 a 2024, o IPCA cresceu 171,5% e o IPAB, 282,4%, com respectivas médias anuais de 5,7% e 7,8% (IBGE, 2025).

Não necessariamente pelas mesmas razões, os dois subgrupos da Alimentação e Bebidas tiveram um aumento muito próximo, entre 2007 e 2024. O IPAF (Índice de Preços da Alimentação Fora do Domicílio) cresceu 270,8% e o IPAD (Índice de Preços da Alimentação no Domicílio), 283,6%, ambos bem acima do IPCA. Daqui por diante, será considerado o acontecido com os componentes do subgrupo Alimentação no Domicílio, que representam próximo a 70% do grupo Alimentação e Bebidas.

Variação de Preços por Nível de Processamento

Em relação à proposta de Monteiro et al (2018), o Grupo 1, dos alimentos in natura ou minimamente processados foi subdividido em G1 – alimentos in natura e G1.1 – alimentos minimamente processados. Os outros três grupos foram mantidos como a delimitação dos autores: G2 – ingredientes culinários processados; G3 – alimentos processados; G4 – alimentos ultraprocessados.

A Tabela 1 revela que todos os cinco agrupamentos registraram aumentos de preços acima do IPCA. Os mais altos ocorreram nos agrupamentos com menor processamento, in natura (G1) ou minimamente processado (G1.1). O G4, dos ultraprocessados, registrou a menor variação de preços. Ponderando a variação de preços pela participação na alimentação no domicílio, percebe-se que a Contribuição para elevação do IPAD foi alta no G1 e G1.1, acima de 30%, média no G4, próximo a 18%, e baixa no G2 e G3, abaixo de 6%.

Dois corolários são estabelecidos. A evolução de preços dos alimentos teve efeito nutricional negativo, posto que aqueles com menor processamento e melhor qualidade nutricional ficaram relativamente mais caros. A indústria conseguiu absorver parte da elevação de preços de suas matérias primas agrícolas, o que pode estar relacionado a aumento de produtividade, redução da taxa de lucro ou ao nível de participação dessas matérias primas na estrutura de custo industrial.

Tomando os três agrupamentos que mais pesam nos gastos do consumidor, o G1 é composto por arroz, feijões, ovo de galinha, frutas, legumes e verduras. No G1.1 entram as carnes bovinas, suínas, de aves, pescados, os lácteos, café em pó e solúvel, farinhas e preparados simples. No G4 há uma gama diversificada de produtos, muitos usando diversas matérias primas agrícolas, entre eles, doces, confeitos, panificados e embutidos.

Tabela 1 – Variação de preços de agrupamentos de alimentos de acordo com a extensão e o propósito do processamento, Brasil, 2007 a 2024

Agrupamentos Número

 

Subitens

% Subitens Variação % Contr.

 

IPAD

IPCA IPAD Total Média
G1 46 2,6 19,2 536,7 11,6 31,3
G1.1 57 5,4 39,9 335,6 7,7 40,7
G2 12 0,7 5,1 297,1 7,8 4,6
G3 17 1,1 8,1 226,5 6,5 5,6
G4 27 3,7 27,7 211,6 6,3 17,8
Total/Média 159 13,5 100,0 321,5 8,0 100,0

 Fonte: IBGE (2025).

 

Variação de Preços por Cadeia Agroalimentar

Além do reagrupamento dos subitens por cadeias agroalimentares, estas foram classificadas da seguinte forma: Comercializável – com fluxos comerciais (exportação ou importação) superiores a 10% da produção nacional; Medianamente Comercializável – com fluxos comerciais entre 3% e 10%; Não Comercializável – com fluxos abaixo de 3%. Ademais, considerou-se o agrupamento Não Classificado, que inclui produtos com origem agrícola indefinida ou compostos por vários produtos agrícolas.

A Tabela 2 registra o aumento de preços das cadeias agroalimentares. A média aritmética da variação de preços foi de 321,6%, com coeficiente de variação de 40,6%, indicando grande dispersão em torno da média. A menor variação de preços foi a do cacau, de 119,1%, a única abaixo do IPCA, e a maior foi da laranja e citros, de 723,0%.

Estabelece-se que a pressão sobre o IPCA decorreu do conjunto de atividades agrícolas. Entende-se que o aumento da exportação de produtos de origem agrícola pelo Brasil, em momento de elevação de preços internacionais, é a causa mais geral da inflação de alimentos aqui constatada. Diretamente, a situação internacional puxou os preços internos dos alimentos de cadeias dos comercializáveis, importáveis e exportáveis, estes com alta competitividade internacional. Os estímulos produtivos aos exportáveis daí decorrentes acabaram por inibir o crescimento da produção dos produtos com nível menor de exportação, resultando em pressão sobre seus preços.

O cálculo da média aritmética da variação de preços dos quatro agrupamentos aponta que o grupo não classificado apresentou o menor valor, aumento de 275,2%, de 2007 a 2024. Frutas e Hortícolas puxaram para cima a média e Indefinidos e Pescado para baixo. Nos outros três agrupamentos, verificou-se que a maior exposição ao comércio externo não implicou em maior aumento de preços, pelo contrário. O maior crescimento ocorreu nos não comercializáveis, 373,5%, seguido pelos medianamente comercializáveis, 344,9%, e pelos comercializáveis, com aumento médio de 311,1%.

Além da causa mais geral, é importante que se procure delimitar causas mais específicas da elevação de preços das cadeias. Não se fará isto aqui, apenas apresentam-se algumas pistas para este necessário complemento empírico. No caso do cacau, a cadeia com menor variação de preços nos alimentos derivados, uma provável explicação é que ela contém um único subitem, chocolate em barra e bombom, caracterizado como ultraprocessado. Na de maior aumento, laranja e citros, pelo contrário, seus cinco subitens são todos in natura (suco de laranja, isoladamente, não é pesquisado pelo IBGE). Acrescente-se que a produção da citricultura brasileira, muito concentrada em São Paulo, vem sendo impactada por diversos problemas sanitários e pelo avanço da área canavieira no Estado.

A bovinocultura de corte registrou a maior contribuição para a inflação da alimentação no domicílio, isto devido a sua grande participação nos gastos dos consumidores e por ter registrado o terceiro aumento de preços, após a laranja e citros e a batata. Somando a bovinocultura de corte, a de leite e o trigo, a contribuição para inflação no domicílio dessas três cadeias alcançou mais de 46%.

 

Tabela 2 – Variação de preços das cadeias agroalimentares, Brasil, 2007 a 2024, em ordem decrescente de contribuição para o IPAD

 

Cadeias Comércio

 

Internac.

% Subitens Variação % Contr.

 

IPAD

IPCA IPAD Total Média
Bovinocultura corte Com 2,4 18,0 445,9 10,6 26,5
Bovinocultura leite MedCom 1,6 11,7 270,5 7,8 10,4
Trigo Com 1,9 13,9 210,7 6,7 9,7
Indefinido ÑClass 1,4 10,1 221,9 6,8 7,4
Frutas ÑClass 0,7 5,3 299,9 8,2 5,2
Avicultura corte Com 0,9 6,7 236,0 7,3 5,2
Hortícolas ÑClass 0,5 3,9 389,8 9,5 5,0
Suinocultura Com 0,8 6,3 216,2 6,7 4,5
Arroz MedCom 0,5 3,5 292,0 9,7 3,4
Laranja e citros Com 0,1 1,1 723,0 13,5 2,6
Café Com 0,3 2,2 364,0 9,9 2,6
Banana ÑCom 0,3 2,0 398,3 10,0 2,6
Tomate ÑCom 0,3 2,1 296,1 10,1 2,1
Avicultura postura ÑCom 0,2 1,7 363,5 9,2 2,0
Complexo soja Com 0,3 2,0 273,0 8,9 1,8
Feijão MedCom 0,2 1,5 342,1 13,7 1,7
Batata MedCom 0,1 1,1 474,8 14,5 1,7
Mandioca ÑCom 0,1 1,0 436,0 11,7 1,4
Pescado ÑClass 0,3 2,1 189,2 6,2 1,3
Cebola Com 0,1 0,8 432,5 16,9 1,1
Açúcar Com 0,2 1,3 214,2 8,5 0,9
Cacau Com 0,2 1,3 119,1 4,7 0,5
Milho Com 0,1 0,4 187,5 6,4 0,2
Total/Média   13,5 100,0 321,6 9,3 100,0

Fonte: IBGE (2025).

 As outras fontes de proteína animal, avicultura de corte, suinocultura, pescado e bovinocultura de leite, tiveram preços variando bem abaixo da bovinocultura de corte. A avicultura de postura apresentou variação de preços intermediária. Entende-se que não se pode atribuir o aumento de preço da carne bovina ao chamado ciclo pecuário, seus reais fatores deveriam ser pesquisados com mais cuidado. Até porque o consumo de carne bovina está muito enraizado nos hábitos alimentares e na cultura brasileira, diferentemente do verificado no mundo todo.

Destacam-se também as cadeias que tiveram aumento de preços acima da média. Neste caso, além da bovinocultura de corte e laranja e citros, aparecem hortícolas, café, banana, avicultura de postura, feijão, batata, mandioca e cebola. Todas com alimentos com baixo nível de processamento e, com exceção do café e cebola, com comércio internacional pouco importante.

Olhos à frente

O foco da preocupação na alta dos alimentos não é de se espantar, visto que está na base da sobrevivência humana. Mas existe fórmula para resolver essa questão? Vale enfrentar o desafio, com mais ações públicas, não apenas se fiando nas condições dos mercados.

Uma das tentativas recentes do governo Lula é zerar os impostos de importação de alimentos para conter a alta. São 11 categorias de alimentos, como carnes, cafés e bolachas. A ação visa ampliar a oferta e aumentar a competitividade no mercado interno.

Mas são necessárias outras ações a médio e longo prazo. Não são observados planos consistentes para fazer com que produtores pequenos e familiares possam se recuperar dos eventos extremos, muito menos que possam colocar em prática uma recuperação transformativa, voltando suas práticas para transição agroecológica.

Quem produz comida de verdade para o mercado interno deveria ser priorizado em detrimento da exportação de nossas riquezas produzidas. Assim como incentivar produções resilientes às mudanças climáticas que tanto os afetam.

 

José Giacomo Baccarin é Livre Docente em Desenvolvimento Agroindustrial e Política Agrícola pela Universidade Estadual Paulista UNESP), colaborado do Instituto Fome Zero (IFZ) – jose.baccarin@unesp.br.

Marcela Donini de Lemos é doutoranda em Sociologia pelo programa de pós-graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), participa do Grupo de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD) – sociomarceladonini@gmail.com

 

Referências

IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Índice de Preços ao Consumidor Amplo. Disponível em https://sidra.ibge.gov.br/home/ipca/brasil. Acesso em 20 de fevereiro de 2025.

MONTEIRO CA; CANNON G; MOUBARAC JC; LEVY RB; LOUZADA M LC; JAIME PC. The UN Decade of Nutrition, the NOVA food classification and the trouble with ultra-processing. Public Health Nutrition, v. 21, n. 1, p. 5-17, 2018. https://doi.org/10.1017/S1368980017000234.



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